sexta-feira, agosto 06, 2004

por extenso entendeu dobrar o destino e enebriar sem limites e desvios





Um beijo por extenso



achei e gravei-o por extenso
aqui bem perto
um beijo sem condição
expendi-o no teu regaço
para te olhar
nos olhos bem no fundo
entrar na tua alma
e nela sentir o conforto
sentir um desejo
de o levares
ser único e inebriar-te
com um encanto que te seduzisse
por extenso
e em transparência
aquecido ao rubro
por seres parte
de um pensamento inusitado
numa hipótese amarrotada

onda

quinta-feira, agosto 05, 2004

fio na face, fluxo doce de uma onda do mar



(F.)


Lá saiu, F outra vez.
Desta feita foi dizendo
que ia comprar rebuçados.
O ponto de partida
teria de assentar
no plano vago
que também incluía uma ponte
até ao porto de chegada.
Evidentemente que entre
um maravilhoso isto
e um sensacional aquilo
se perde muitas vezes,
e muito incrivelmente,
uma belíssima continuidade,
o fio da meada, quejandos,
vice-versas respectivos ou não.
Seja como for, desta vez,
foi outra vez em que F
saiu falando à toa.
A solidão em si mesma
é o estado menos solitário
que se pode conceber
já que, a seu tempo,
ela está com todos
e cada um de nós.
As insónias têm nomes
desencontrados
e alheios aos sonhos;
têm a essência triste
das ideias extraviadas
na rota dos ventos;
e tudo isto acontece
nos meandros
da própria mente.
... A ver de rebuçados
como F disse, ao sair,
mas queria, algo mais,
como a transparência
abrupta de um vento
etilizado em cristal;
julgava inexpugnáveis,
todos os acessos
à ideia de infinidade
num reflexo de um copo.
Lá saiu... de vez
e atrás de si
todas as deixas de uma vida
não importavam mais
que... ... ... rebuçados.


_________________LuMe
Luis Melo

mar





Em frente ao oceano
venho desvendar a fantasia
como que num deambular
entre ocasos intemporais
e simulacros de acasos.
Confronto-me com o oceano
embarcando no seu transe.
Na minha mente
evolui uma monção geminada
que resulta no dual sentido
de estar atento e alienado.
Se a brisa me afaga o rosto
se as algas me cobrem os pés
não deixo eu de ser a brisa
nem hesito em viver na alga
ou em divagar pela melodia
deste Todo que se retém
sem nunca se repetir.
Em frente do mar
embriago-me em gradações
do original, pelo absurdo,
até ao absoluto reavivar
em cada grão de areia
uma réstia de eternidade
uma abstracção débil
com um gosto salgado
de um oceano interior.
Sou dele a taça
as margens, o leito;
sou um verso vivo
na poesia dos meus avós;
sou a veia conducente
ao coração da terra-mãe
ao meu ventre de viver
e de um dia morrer.
Algures, a ponte
como uma dádiva perene;
um salvo-conduto à passagem
da fantasia para o sonho
na bruma tranquila
entre duas madrugadas.
Ocasionalmente,
a candura do afago
de um fiozinho de sol
que desencadeia delírios
nas linhas de força
do cristal, feito de mim,
em frente ao mar.
...E a minha alma nua
a reinventar o salgado
e a maresia numa lágrima.

_________________LuMe
Luis Melo

a noite transforma as palavras



Derrubei o olhar nos mistérios do tempo
contornei a ilha da verdade,
mergulhei embriagada na tortura da noite
com os olhos saboreio adormecida,
o reflexo de um rosto
nas paredes descubro o mistério das mãos
em sombras cruzadas e finas.


Sinto o mar
em rostos cansados de sofrer,
cigarros que ardem em dedos duros e queimados
felicidade com defeito dilacerado,
amor inacessível,
construído em labirintos
palavras sem valor manchadas e vazias
vozes tremulas gastas de desanimo.


Uno as mãos
um gemido adormece comigo


onda

segunda-feira, agosto 02, 2004

com a pélala branca do malmequer amarelo pintei o dia




veio o dia sem idade
que arrasa sem cor
os movimentos dos dedos

da janela
uma estrela na profunda escuridão

o frio trai
sorvido nas sombras

espírito
alma
misturados no sal da vida

sopro árido
rumor de marés invisíveis

um mar terno e doce
embriagado de mistérios

branco, nobre
realçando sentimentos

o cheiro que sinto
num
desejo de amar


onda

sexta-feira, julho 30, 2004

encantam-me as borboletas
as suas cores
o seu baile
de felicidade
seduz-me o seu encanto
a saltitar de alegria
num desejo único
de ser uma parte de mim

quarta-feira, julho 28, 2004

deram-te voz e ganhas-te outra alma

Pressentindo
o desassossego da noite
a voz
indicou o caminho
isolou o rosto
diluiu memórias
esqueceu o nome
humedeceu o olhar
a voz
ergueu bocas
em beijos loucos
sabotou o canto das aves
juntou à alma o mar
a voz
espreitou pela janela
prendeu-se num raio de luz
navegou desejos
cicatrizou feridas
mas mais...
a voz
petrificou lágrimas
culpou a solidão
uniu dois corpos
e
a voz
deixou por fim
ouvir o amor

onda

gritou a voz liberta no alvoroço da madrugada



A voz indicou o caminho
isolou o rosto
diluiu memórias
esqueceu o nome
humedeceu o olhar
pressentiu a noite nervosa
ergueu bocas
em beijos loucos
impediu o canto das aves
juntou à alma o mar
espreitou pela janela
prendeu-se num raio de luz
divagou desejos
cicatrizou feridas
congelou lágrimas
culpou a solidão
uniu dois corpos
a voz
deixou por fim
ouvir o amor

onda

terça-feira, julho 27, 2004

quebrei as sombras do tempo com palavras



construí meu rosto
de uma caverrna

rasguei a noite
com o luar

com madrugadas
cantei ventos

sonhei na inversão do tempo,
fiz da loucura a realidade

destruí a cidade
com vícios nocturnos

desenhei a solidão,
dei-lhe a lógica

ao dia várias cores
para se tornar evidente

chamei vida
à morte!

abri a porta à realidade
eram tantas que me confundiram

ali deixei o meu olhar tornar-se liso
quebrei os vidros do tempo

onda

segunda-feira, julho 26, 2004

disse sim em vez de não




disse sim
à vida ainda no ventre de minha mãe
um sim
quando tentei falar
sim,
quando as regras me impunham a chorar
um sim
ao meu primeiro beijo
tantos sins pela vida fora
às ilusões,
desilusões
aos mistérios,
aos prazeres
sim
ao fascínio e ao sonho
à imagem verdadeira do amor
às horas de incerteza
sim
aos queixumes
e lamentos da noite
às lágrimas que
teimavam em cair sem beleza


talvez noutro momento,
noutra lembrança
de poder
o meu pensamento
na calma de uma liberdade já passada
em qualquer altura,
mesmo agonizada,
conseguisse dizer não
não ao obsessivo
poeirento caminho
não ao hábito
da noite
não à dor
de infortúnios
não no momento
de nascer


onda

alimento o olhar com as tuas palavras




Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.


Al Berto

digo palavras, lembro-me de um mar verde, o desfolhar do medo, a força do olhar




Num olhar gelado
sorri.
Entrou no corpo
queimou,
sonhei
o coração cantou
suspirei com energia
a liberdade de uma vida
escondida
num medo
em farrapos de tempo
entre frio
chuva
e vento,
num abraço
escutei
e senti,
o tempo passar veloz.


onda

nostalgia de uma noite




nostalgia
da noite,
no silêncio
do caminho
entre a madrugada perdida
em
destinos
ânsias
frustrações,
no absurdo frio
de um sonho.
Arrumei
a
luz do dia
na ternura de amantes
entre o espaço
da janela.
Memórias de grito eloquente
num sim à poesia,
onde a poesia
é excelência
nas palavra interessantes
dentro da cidade perdida.
Troquei o ontem
pelo amanhã
para o sentir
renovado
de razões
numa deriva de olhar
o azul
pisando a areia da vida.

onda

domingo, julho 25, 2004

Amava-a e pela eternidade irei dilacerá-la




Amava-a e pela eternidade
irei dilacerá-la,
o punhal que embrenhei
nas aurículas
cerceando o riacho
das veias
será agora amante
de Rosalia ,
penetrará as costas
buscando o coração ,
a redoma da morte
não é refúgio
suficiente ,
no inferno não há
meias medidas.
Ficámos juntos
em território danado.
Apesar da matilha de cães ,
o dilaceramento ,
a bruta repetição do crime
pelos séculos dos séculos ,
eu e a minha amada
estamos livres de Deus
até ao fim do mundo.


Fátima Maldonado

sábado, julho 24, 2004

o impossível




agarrei o Mundo entre os dedos da mão
gritei-lhe bem alto a dor da desilusão


pintei-o como se fosse um arco-íris...
tirei-lhe a guerra, a fome, as amarguras da vida


gritei-lhe o desespero do frio
da dor, da destruição e revolta


tentei ensinar-lhe a usar
o verbo amar e pensa


mergulhei-o no abismo
entre passos incertos


em pedaços de gente
pedi-lhe o momento


e por um instante o mundo parou


onda

quinta-feira, julho 22, 2004

leio-te no silêncio de todas as noites Herberto Helder



Amo-te
— diríamos nós,
no exacto instante de lhe cravar o punhal
no meio do peito.

E depois
desejaríamos que se fizesse luz,
uma grande luz branca,
o sol,
para vermos o sangue correr e,
possivelmente,
afogar a nossa boca no sangue amado.

Para conhecermos tudo,
até ao fundo
e até ao fim.
Porque o amor e o conhecimento
são as artes do crime.

Tenho um ramo de flores para ti,
diz o amante:
são flores, venenosas.

Mas toda a gente sabe isto:
ninguém deseja nada do amor.

É o tema eleito das palavras.

Eis a razão por que o outro
está escondido na praça,
ao meio da qual existe um largo fontanário,
com a sua rodada taça de pedra,
de onde transborda uma água
silenciosa e dormente.

A brasa do cigarro
marca uma curva no ar
e cai na água.


Ele está ali, bem perto.
Mas depois
tudo será mais difícil.

Porque
será a perseguição declarada,
sem o pretexto de pedir lume.

Também não haverá já
a indicação do lume, no meio da noite
— o sinal de que ali está a pessoa,
viva,
fumando,
respirando,
tremendo.

Porque foges?,
e enquanto,
no mais secreto da sua aflição,
ele o pergunta,
corre em direcção ao fontanário
e quase esbarra com o outro.

Sentem-se,
mútuos,
únicos,
arfam no escuro da praça,
a treva treme levemente
na água adormecida.

Mas ele diz
(e quem sabe se isso é absurdo?)
diz: lume,
e o outro escapa-se,
e põe-se a correr em volta
do fontanário.

Os sapatos
chapinham na água e a ele,
que já começou a persegui-lo,
correndo também em torno da taça de pedra,
chapinhando do mesmo modo
na água vazada,
ocorre-lhe um insólito pensamento:
caminhamos sobre as águas.

Então abranda um pouco a corrida,
inclina o corpo para a direita,
e mete a mão na água da taça.

É um ruído novo,
virgem,
e o contacto da sua carne com a água
faz nascer em si uma confusa alegria,
o sentido de uma festa natural,
o desejo de morrer ali,
agora,
triunfalmente.

E o outro?
— o outro foge,
e como não abrandou o passo,
nem mergulhou a mão na água,
nem pensou (supõe-se) na alegria
de uma festa mortal,
o outro adiantou-se,
e já se encontra no lado oposto
do fontanário.

E é ágil,
essa criatura sem nome,
o ser que se ama,
aquele que se persegue
e a quem se deseja conhecer,
para suplicar lume,
ou voz,
ou vida,
ou sangue,
ou sabe--se lá o quê.

Corre depressa demais.
E andando em círculo,
chapinhando sempre na água,
e às vezes pensando ainda:
caminhamos sobre as águas,
ele sente,
súbito,
que o outro avançou bastante.

Treme de medo,
porque o outro avançou tanto
que já ultrapassou o ponto onde,
com o ponto onde ele se encontra,
formava os extremos do diâmetro
do círculo.

E isto significa:
o outro é agora o perseguidor.

E, como avança cada vez mais,
torna-se cada vez mais no perseguidor,
e ele no perseguido.

Talvez o outro pense:
porque foges?,
e lhe queira pedir a sua voz,
o seu amor,
o seu sangue.

É quando sente perto da nuca
a respiração do outro.

Tem tempo apenas para desviar-se,
correr para a esquerda,
atravessar a praça
e meter por uma ruela negra.

Mas, parando um instante,
ouve os passos do outro na sua direcção.

E então foge através do bairro,
do tempo,
de pedra em pedra,
com o seu pavor de animal perseguido,
ouvindo o bater implacável
dos pés do outro.
Haveria palavras para ouvir,
a antiquíssima súplica do perseguidor:
porque foges?

E que poderia ele dizer?:
tenho medo?

As palavras nunca mais acabariam,
enredar-se-iam umas nas outras,
seria um jogo mortal.

Não mais haveria
a suspensão do irremediável,
esta espécie de silêncio na beira do crime,
no qual sabemos,
com dor,
que ainda estamos vivos.

Ele foge.

Quem sabe
se a noite terá fim?


Herberto Helder


Cortaram os trigos. Agora

a minha solidão vê-se melhor.



Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, julho 21, 2004

atiro pétalas ao vento na noite e partilho o seu enlevo




A casa onde às vezes regresso é tão distante

da que deixei pela manhã

no mundo

a água tomou o lugar de tudo

reúno baldes, estes vasos guardados

mas chove sem parar há muitos anos



Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai

Uma viagem se deu

Entre mãos e o furor

Uma viagem se deu: a noite abate-se fechada

Sobre o corpo



Tivesse ainda tempo e entregava-te

O coração


José Tolentino Mendonça


terça-feira, julho 20, 2004

A Salada




No meu prato que mistura de Natureza!
As minhas irmãs as plantas,
As companheiras das fontes, as santas
A quem ninguém reza. . .

E cortam-nas e vêm à nossa mesa
E nos hotéis os hóspedes ruidosos,
Que chegam com correias tendo mantas,
Pedem «salada», descuidosos...

Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
A sua frescura e os seus filhos primeiros,
As primeiras verdes palavras que ela tem,
As primeiras cousas vivas e irisantes
Que Noé viu
Quando as águas desceram e o cimo dos montes
Verde e alagado surgiu
E no ar por onde a pomba apareceu
O arco-íris se esbateu...



Alberto Caeiro

"usar as palavras certas..."

Usar as palavras certas e ter no entanto delas o pudor! Pronunciá-las então dentro dos lábios para que as possas recolher nas modulações do silêncio, como se as emitisse dentro de um aquário: o movimento da boca dos peixes. Assim o pensaria ainda hoje se não tivesse descoberto que afinal as palavras são peixes voadores. Elas atraiçoam a nossa contenção, forçam o degelo, conduzem-nos à clareira que buscávamos onde por fim abelhas zumbem e os teus lábios me salvam do sono.
 
 
Egito Gonçalves

  abril desfolhado a tela já não é sinfonia nem as aves gritam como qualquer papoila num campo distante não há forças para sonhar ...